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E se os protestantes estiverem certos sobre a Eucaristia?

Tradução por Simão Bezerra – Artigo original : What if Protestants are Right about the Eucharist? – escrito por Joe Heschmeyer, em língua inglesa. 

Há muitos Protestantes com uma grande inteligência, bem baseados na Escritura, fielmente procurando discernir e seguir a vontade de Deus, que concluíram que as palavras de Jesus sobre o Pão e o Vinho na Última Ceia, sobre as Espécies se tornarem Seu Corpo e Seu Sangue, são meramente simbólicas. E se eles estão certos?

 Primeiro, parece que tal revelação seria trágica. Receber a Eucaristia é o mais íntimo encontro com Jesus Cristo neste lado da Eternidade. De repente, descobrir que essa intimidade era uma farsa, e o que pensávamos ser Deus era na verdade apenas pão, seria desanimador, no mínimo. Pior, isso significaria que todas aquelas horas gastas em adoração eram algo próximo da idolatria do que uma adoração propícia a Deus.

Mas a verdadeira tragédia seria ainda maior – isso significaria que a Igreja estava errada sobre a Eucaristia desde o princípio, pois os primeiros cristãos universalmente acreditavam na Presença Real de Jesus na Eucaristia. O renomado historiador da Igreja Primitiva J.N.D. Kelly, um Protestante, concluiu que “o ensinamento Eucarístico, deve ser entendido desde o início, que era no geral inquestionavelmente realista, isto é, o pão e o vinho consagrados eram tomados, tratados e designados como o Corpo e Sangue do Salvador” (Early Christian Doctrines, 440).

Tome como exemplo a Igreja em Esmirna, atualmente Turquia. Na segunda metade do primeiro século, o apóstolo João entregou uma mensagem diretamente de Jesus Cristo aos Esmirnenses, encorajando-os na sua fidelidade em meio aos sofrimentos (Ap. 2.8-11). Pouco tempo depois, um discípulo de João, Santo Inácio de Antioquia, escreveu a essa mesma igreja local enquanto estava se encaminhando para Roma para ser martirizado no início do segundo século.

Na sua carta, Inácio alerta os Esmirnenses para “se manterem distantes” dos hereges Gnósticos “porque eles não confessam que a Eucaristia é a carne do nosso Salvador Jesus Cristo” (Epístola aos Esmirnenses 7). Repare que Inácio não sente que é necessário convencer seus leitores da verdade da Presença Real. Para ele, era necessário apenas dizer que, uma vez que os Gnósticos rejeitavam a Presença Real, não se deveria “falar deles nem em particular ou público”.

E este é o modo que os Cristãos viam a Eucaristia pelos primeiros séculos da Igreja. Isso não era um teólogo aqui ou ali que ensinou a Presença Real, mas era a posição Cristã sobre o tópico. Em uma série de aulas dadas a catecúmenos que estavam para entrar na Igreja, São Cirilo de Jerusalém os lembrou que “vocês foram ensinados e foram firmemente convencidos que o que aparenta e tem sabor de pão e vinho não é pão e vinho, mas sim o Corpo e o Sangue de Cristo”(Palestra Catequética 22). Cirilo está confortavelmente assumindo que até mesmo aqueles que não foram batizados ainda sabem o suficiente sobre a Cristandade para concluir que os Cristãos acreditam na Presença Real.

 Ainda mais firme do que os muitos Pais da Igreja que ensinam e pregam na Presença Real da Eucaristia é a ausência de líderes cristãos rejeitando essa posição católica ou até ensinando uma posição contrária.

Se um pastor Batista se levantasse no Domingo e declarasse que o Pão e o Vinho se tornam Corpo e Sangue de Cristo, você poderia esperar que haveria reações agressivas e até denúncias de heresia, ou ao menos tentativas de correção. Isso é porque os Batistas não crêem na Presença Real.

O fato de que não vemos esse tipo de protesto na Igreja primitiva é evidência constrangedora que os primeiros cristãos não creem nos que os batistas modernos crêem sobre a Eucaristia. Em vez disso, eles eram unidos em crença sobre a Presença Real na Eucaristia num tempo que Cristãos não tinham medo de mexer uns com os outros sobre questões relativamente menores.

Então, porque isso é importante? Porque isso significa que esses Protestantes não estão apenas dizendo : “Eu penso que as palavras de Cristo na Última Ceia foram ditas para serem meramente simbólicas”, porém estão dizendo: “Eu penso que toda a Igreja entendeu errado um dos mais básicos aspectos da Cristandade por séculos”. Chamemos isso de a posição de que “todo mundo entendeu o Evangelho errado”.

Na Última Ceia, Jesus Cristo disse : “Não vos deixareis sozinhos”, uma promessa de não abandonar a Igreja ou nos deixar como órfãos. Especificamente, Cristo prometeu preservar Sua Igreja ao enviar “o Espírito da Verdade”, o Espírito Santo, para “ensinar-vos todas as coisas, e trazer a memória o que eu vos tenho dito” (João 14.17,26). Como acreditar que promessa é compatível com a ideia de que a Igreja inteira perdeu o verdadeiro sentido da Última Ceia, e que nenhum cristão obteve sucesso em seguir as instruções “em memória de mim” (I Cor. 11:24)?

Com certeza, deixados à nossa própria mercê, nós entenderíamos alguns aspectos do Evangelho errado. É por isso que existem tantas denominações protestantes em competição. Mas a solução é se voltar para a Igreja e ter a humildade de ser guiado, ao invés de confiar que nossa própria leitura da Escritura é superior a de todo mundo. Esse modelo é relatado na própria Escritura. Quando o apóstolo Filipe achou um oficial etíope lendo o livro de Isaías, ele perguntou, “você entende o que você está lendo?”, e o homem respondeu : “Como posso entender, se ninguém me explica?” (Atos 8.30-31). Mas a visão protestante mina tudo isso ao sugerir que a Igreja visível, e também todos os Cristãos em todo lugar, talvez sejam os errados.

Isso não é apenas sobre rejeitar a autoridade do ensinamento da Igreja, mas rejeitar toda a Cristandade antes de um certo ponto da História. Se você pode jogar (por exemplo) toda a Cristandade pré-1517, por que não joga toda a pré-2018? O que superficialmente aparenta ser uma simples divergência na verdade é uma questão de se confiamos ou não na promessa de Cristo de não nos abandonar, deixando nós à mercê das nossas próprias interpretações teológicas.

E mais, se todos entenderam o Evangelho errado, o que pode nos fazer pensar que alguém entendeu o Evangelho corretamente agora? Se todos estiveram errados na literalidade da Eucaristia por séculos, por que alguém não estaria errado na literalidade da Ressurreição ou de qualquer aspecto do Cristianismo? Se toda Cristandade pode entender a mensagem central do Cristianismo de maneira errada, então parece que nós não podemos ser confiáveis para entender os princípios básicos do Cristianismo de modo correto. Mas sustentar isso, é claro, debilita nossa habilidade de confiar na própria Cristandade.